Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Carta aos pais

 

       

 

      Não tenho por hábito escrever 'posts' muito longos, sei que na correria das nossas rotinas nem sempre há tempo para ficar a ler textos muito extensos... Mas não pude ficar indiferente a esta "carta aos pais" desse escritor, poeta, professor, que tanto admiro, Rubem Alves... Ele fala-nos do preconceito contra as pessoas/crianças diferentes de uma forma tão simples e ainda assim tão certeira, sem tabus ou eufemismos... É bom que reflictamos sobre esta realidade a que não podemos ser indiferentes só porque não nos tocou directamente... Agora que, mais que nunca, convivo com estas crianças, sei como é importante para elas não serem olhadas de lado, com pena ou repulsa... são especiais sim, seres incrivelmente especiais, que merecem todo o nosso respeito e, acima de tudo, ser olhadas como nossos semelhantes, com as diferenças a que todos e cada um tem direito... Não devemos esquecer nunca que deficiências todos temos, ou teremos, como nos prova Rubem Alves neste texto surpreendente. Se tiverem um pouco de paciência, vale realmente a pena ler até ao fim!!

 

 

«Também sou pai e portanto compreendo. Vocês querem o melhor para o filho, para a filha.

A melhor escola, os melhores professores, os melhores colegas. Vocês querem que filhos e filhas fiquem bem preparados para a vida.
A vida é dura e só sobrevivem os mais aptos. É preciso ter uma boa educação.
Compreendo, portanto, que vocês tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma política estranha: colocar crianças deficientes nas mesmas classes das crianças normais. Os seus narizes torcidos disseram o seguinte: Não gostamos. Não deveria ser assim! O problema começa com o fato de as crianças deficientes serem fisicamente diferentes das outras, chegando até mesmo, por vezes, a ter uma aparência esquisita. E isso cria, de saída, um mal-estar, digamos estético. Vê-las não é uma experiência agradável.
É preciso se acostumar. Para complicar há o fato de as crianças deficientes serem mais lerdas: elas aprendem devagar. As professoras vão ser forçadas a diminuir o ritmo do programa para que elas não fiquem para trás. E isso, evidentemente, trará prejuízos para nossos filhos e filhas, normais, bonitos, inteligentes. É preciso ser realista; a escola é uma maratona para se passar no vestibular. É para isso que elas existem. Quem fica para trás não entra. O certo mesmo seria ter escolas especializadas, separadas, onde os deficientes aprenderiam o que podem aprender, sem atrapalhar os outros.
Se é assim que vocês pensam eu lhes digo: Tratem de mudar sua maneira de pensar rapidamente porque, caso contrário, vocês irão colher frutos muito amargos no futuro. Porque, quer vocês queiram quer não, o tempo se encarregará de fazê-los deficientes.
É possível que na sua casa, num lugar de destaque, em meio às peças de decoração, esteja um exemplar das Escrituras Sagradas. Via de regra a Bíblia está lá por superstição. As pessoas acreditam que Deus vai proteger. Se assim fosse, melhor que seguro de vida seria levar uma Bíblia sempre no bolso. Não sei se vocês a lêem. Deveriam. E sugiro um poema sombrio, triste e verdadeiro do livro de Eclesiastes.
O autor, já velho, aconselha os moços a pensar na velhice. Lembra-te do Criador na tua mocidade, antes que cheguem os dias das dores e se aproximem os anos dos quais dirás: "Não tenho mais alegrias." Antes que se escureça a luz do sol, da lua e das estrelas e voltem as nuvens depois da chuva... Antes que os guardas da casa comecem a tremer e os homens fortes a ficar curvados. Antes que as mós sejam poucas e pararem de moer. Antes que a escuridão envolva os que olham pelas janelas. Antes que as pessoas se levantem com o canto dos pássaros. Antes que cessem todas as canções. Então se terá medo das alturas e se terá medo de andar nos caminhos planos. Quando a amendoeira florescer com suas flores brancas, quando um simples gafanhoto ficar pesado e as alcaparras não tiverem mais gosto. Antes que se rompa o fio de prata e se despedace a taça de ouro e se quebre o cântaro junto à fonte e se parta a roldana do poço e o pó volte à terra... Brumas, brumas, tudo são brumas. (Eclesiastes 12: 1-8)
Os semitas eram poetas. Escreviam por meio de metáforas. Metáfora é uma palavra que sugere uma outra. Tudo o que está escrito nesse poema se refere a você, a mim, a todos. Antes que se escureça a luz do sol. Sim, chegará o momento em que os seus olhos não verão como viam na mocidade. Os seus braços ficarão fracos e tremerão no seu corpo curvo. As mós - seus dentes não mais moerão por serem poucos. E a cama pela manhã, tão gostosa no tempo da mocidade, ficará incômoda. Você se levantará tão cedo quanto os pássaros e terá medo de andar por não ver direito o caminho. É preciso ser prudente porque os velhos caem com facilidade por causa de suas pernas bambas e podem quebrar a cabeça do fêmur. Pode até ser que você venha a precisar de uma bengala. Por acaso os moinhos pararão de moer? Não, os moinhos não param de moer. Mas você parará de ouvir. Você está surdo. Seu mundo ficará cada vez mais silencioso. E conversar ficará penoso. Você verá que todos estão rindo. Alguém disse uma coisa engraçada. Mas você não ouviu. Você rirá, não por ter achado graça, mas para que os outros não percebam que você está surdo.
Você imaginou uma velhice gostosa. E até comprou um sítio com piscina e árvores. Ah! Que coisa boa, os netos todos reunidos no "Sítio do Vovô", nos fins de semana! Esqueça. Os interesses dos netos são outros. Eles não gostam de conviver com deficientes. Eles não aprenderam a conviver com deficientes. Poderiam ter aprendido na escola mas não aprenderam porque houve pais que protestaram contra a presença dos deficientes.
A primeira tarefa da educação é ensinar as crianças a serem elas mesmas. Isso é extremamente difícil. Fernando Pessoa diz: Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim. Freqüentemente as escolas esmagam os desejos das crianças com os desejos dos outros que lhes são impostos. O programa da escola, aquela série de saberes que as professoras tentam ensinar, representa os desejos de um outro, que não a criança. Talvez um burocrata que pouco entende dos desejos das crianças. É preciso que as escolas ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos!
A segunda tarefa da educação é ensinar a conviver. A vida é convivência com uma fantástica variedade de seres, seres humanos, velhos, adultos, crianças, das mais variadas raças, das mais variadas culturas, das mais variadas línguas, animais, plantas, estrelas. Conviver é viver bem em meio a essa diversidade. E parte dessa diversidade são as pessoas portadores de alguma deficiência ou diferença. Elas fazem parte do nosso mundo. Elas têm o direito de estar aqui. Elas têm direito à felicidade.
Sugiro que vocês leiam um livrinho que escrevi para crianças, faz muito tempo: Como nasceu a alegria. É sobre uma flor num jardim de flores maravilhosas que, ao desabrochar, teve uma de suas pétalas cortada por um espinho. Se o seu filho ou sua filha não aprender a conviver com a diferença, com os portadores de deficiência, e a ser seus companheiros e amigos, garanto-lhes: eles serão pessoas empobrecidas e vazias de sentimentos nobres. Assim, de que vale passar no vestibular?
Li, numa cartilha de curso primário, a seguinte estória: Viviam juntos o pai, a mãe, um filho de 5 anos, e o avô, velhinho, vista curta, mãos trêmulas. Às refeições, por causa de suas mãos fracas e trêmulas, ele começou a deixar cair peças de porcelana em que a comida era servida. A mãe ficou muito aborrecida com isso, porque ela gostava muito do seu jogo de porcelana. Assim, discretamente, disse ao marido: Seu pai não está mais em condições de usar pratos de porcelana. Veja quantos ele já quebrou! Isso precisa parar. O marido, triste com a condição do seu pai mas, ao mesmo tempo, sem desejar contrariar a
mulher, resolveu tomar uma providência que resolveria a situação. Foi a uma feira de artesanato e comprou uma gamela de madeira e talheres de bambu para substituir a porcelana. Na primeira refeição em que o avô comeu na gamela de madeira com garfo e colher da bambu o netinho estranhou. O pai explicou e o menino se calou. A partir desse dia ele começou a manifestar um interesse por artesanato que não tinha antes. Passava o dia tentando fazer um buraco no meio de uma peça de madeira com um martelo e um formão. O pai, entusiasmado com a revelação da vocação artística do filho, lhe perguntou: O que é que você está fazendo, filhinho? O menino, sem tirar os olhos da madeira, respondeu: Estou fazendo uma gamela para quando você ficar velho.
Pois é isso que pode acontecer: se os seus filhos não aprenderem a conviver numa boa com crianças e adolescentes portadores de deficiências eles não saberão conviver com vocês quando vocês ficarem deficientes.»
                                   Rubem Alves
 
 
publicado por Cris às 23:19
link | comentar | favorito
10 comentários:
De MissAna a 17 de Novembro de 2009 às 01:19
De facto valeu a pena ler até ao fim! Infelizmente ainda há muito a fazer contra o preconceito...
De Cris a 17 de Novembro de 2009 às 22:20
Muito mesmo!! Por que não começar por permitir que as crianças aprendam e convivam com a diferença?! Seria(á) um passo importantíssimo!

Beijinhos
De Sorriso a 17 de Novembro de 2009 às 16:27
Vale a pena ler, sim.
Infelizmente, ainda há muitos preconceitos. Há que combatê-los, é certo, mas isso não é fácil...

Beijinhos
De Cris a 17 de Novembro de 2009 às 22:21
Não é nada fácil!! Teremos todos de caminhar no mesmo sentido...

Beijinhos
De libel a 17 de Novembro de 2009 às 21:47
Olá Cris, um dia deparei-me com este texto e guardei-o religiosamente, não sei se conheces, mas nunca é demais reler, pois aqui sim falamos de deficiências graves que são de facto lamentáveis. Quanto às crianças especiais, essas merecem todo o nosso carinho e admiração, pela força, empenho e acima de tudo pelas grandes qualidades que possuem.

"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.
"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
"Diabético" é quem não consegue ser doce.
"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
"Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.

Beijokas grandes
De Cris a 17 de Novembro de 2009 às 22:24
Olá Libel!
Conheço muito bem esse texto de Mário Quintana!! Toca realmente em algumas "feridas"!!
Todos temos as nossas diferenças e gostamos de ser respeitados por elas... infelizmente nem todos pensam assim!! Só reparam no seu próprio umbigo!

Beijinhos
De Segredos!!! a 17 de Novembro de 2009 às 22:13
Pois, o preconcetio nas escolas é mau... as crianças sentem logo... e inibem-se, de aprender de brincar e as vexes de viver...
Vai para os meus favoritos =)
Vou ser p+rofessora e leituras desta é sempre importante na formação...

Beijinhs****
De Cris a 17 de Novembro de 2009 às 22:27
Olá

Este texto é um bom instrumento de reflexão para professores e, sobretudo, para pais, aqueles pais que não admitem "misturas" (como já ouvi chamar-lhe!)...

Boa sorte com a formação!!
Beijinhos
De Caminhando... a 17 de Novembro de 2009 às 22:35
Olá!
Valeu sem duvida a pena ler este post todo.

Diferença não é sinonimo de incapacidade... E o amor não se mede e não se tem mais por uma criança dita normal ou por uma criança dificiente. São ambas especiais e ambas merecedoras de respeito, carinho e atenção.

Beiijnhos
De Cris a 17 de Novembro de 2009 às 22:46
Olá Joana!

Infelizmente nem todos pensam assim... Desde que lido com estas crianças me tenho apercebido deste preconceito que eu julguei mais ultrapassado!! E, embora por vezes não o demonstrem, estas crianças sentem e entristecem-se com essas atitudes!!

Beijinhos

Comentar post

.mais sobre mim

.Setembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Regresso ao ativo...

. O tempo voa...

. Por aqui...

. Mais uma estrelinha brilh...

. Dizem...

. "Vestido" novo ;)

. Uff...

. o que é o sindrome de ASP...

. Brrrrrr....

. Há sempre...

.links

.pesquisar

 

.arquivos

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

.tags

. todas as tags